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Projeto Piloto: O Tetê, a Série.

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O alarme do iphone é devastador! Naquele troço não há musiquinha que tenha o mínimo de complacência com a gente, é impressionante. Às 6h da manha, então, o negócio beira a brutalidade! Porque se você é do tipo que põe a canção preferida pra acordar todo santo dia é porque você ainda não sacou a vida. Seria como, por exemplo, comer pizza de calabresa com borda recheada de catupiry debaixo d’água. É sacrilégio; aberração!

A coisa explode às 6h porque foi o horário que todos aqui de casa, com exceção da Laura e do Martin, em assembléia, decretaram ser o melhor para o triunfo do primeiro tetê do dia.
E acordo sem saber onde! Posso me programar antes de dormir; me planejar fisicamente a partir das 4 da tarde. Não tem jeito! Contém SPOILER: planejamento. Esta é a palavra. Planejar é/será tão automático quanto, sei lá, abrir a tela do WhatsApp ou bocejar diante de um bocejo.

O alarme histérico só perde pra um outro barulhinho: quando a velocidade-neurastênica-da-luz do aparelho da Maçã é antecipada por um choro lento, de fundo, que parece vir de bonde de Osaka, no Japão, à Presidente Prudente, com passagem pela Radial Leste em pleno horário de pico. Embora quase silencioso e arrastado, o grunhido é fulminante. Pra estes casos, talvez já não seja nem mais susto, é quase uma parada cardiorrespiratória!

Maria dorme no primeiro quarto depois da sala, no corredor, à esquerda, antes do closet/quarto da bagunça e o nosso. Ela dorme na cama — a cama é aquela espécie Transformers: primeiro, o berço; depois a mutação. Tenho até medo do que possa vir depois. E a mudança foi bem aceita. Outro SPOILER: bebês tem o dom da adaptação. É uma coisa incrível! Antes mesmo de completar o ano, Maria já havia se apropriado do quarto e do robô, vulgo, cama, com folga.

Seja através do apocalíptico alarme das 6h ou pelo sussurro-mortal das 5h47, apesar da total falta de direção, há uma bússola-chip instalada em algum lugar perto do pâncreas, creio eu, tanto no papai quanto na mamãe logo após o parto, — o da mamãe é ainda mais potente, pois recebe atualizações mensais, sem nem precisar da Apple Store ou de rede wi-fi —, que me empurra rumo ao caminho certo. Talvez este seja outro SPOILER, mas ainda não tenho certeza absoluta.

Como num movimento de capoeira, saio da cama como se não precisasse de braços, abro a porta barulhenta do nosso quarto e fecho a porta barulhenta do nosso quarto sem acordar a Tato, que logo acordará em definitivo. Ufa, já tô no corredor, escuro e levemente nebuloso, calculo. Então, abro a porta barulhenta do closet/quarto da bagunça, pego o potinho projetado por algum OVNI pra guardar leite em pó e os derramo todos na mamadeira, vulgo, tetê, que já está com 180 ml de água, devidamente preenchido na noite anterior, e fecho a porta barulhenta do closet/quarto da bagunça.
– Caramba, consegui!
– Não, ainda me falta o último e o mais perigoso trajeto.

Se às 6h, a coisa é tranquila. Abro a porta barulhenta do quarto de Maria e, de longe, visualizo todo o campo. Maria está dormindo, de bruços, com a cara amassada e com os joelhos grudados, um do lado do outro, levemente fixos no colchão, fazendo com que a bunda chegue bem próxima da lua. Fecho a porta barulhenta, vou até a cama à passos de quem não quer ser surpreendido e dou uma geral na limpeza: apalpo-a e respiro fundo, com a propriedade de um médico pneumologista, e realizo, assim, o diagnóstico preciso pela troca ou não da fralda. Às 6h não há troca! Então, após o exame, o negócio é virá-la de modo que fique de frente pra mim, recolho do chão a Zelda, o Mamute e o livro do circo, ponho o mini-banquinho-branco ao lado do robô-berço-transformers e…

Mas se o processo todo for às 5h47, aí, o bicho pega!
Abro e fecho todas as portas barulhentas numa tacada só. Como se as portas fossem de metal e eu o Magneto, dos X-Men. Já dentro do quarto dela, Maria chora, em pé, clamando por socorro.
Normalmente, o choro é pela fralda, e, também, pela fome!
É, tipo, um combo! Minha avó sempre esteve certa: coisa ruim nunca tá sozinha! O exame se torna desnecessário. Então, o médico pneumologista é substituído pelo Senhor Miyagi. A troca da fralda é feita em minutos, embora feita aos berros. Que me perdoe o vizinho do 253! Deitada, Maria olha para o tetê como se, de repente, encarnasse a Uma Thurman, em Kill Bill. E eu, no caso, sou o Bill, óbvio. 

E ela, enfim, encara o primeiro tetê do dia.
Os 180 ml não sobrivem por 10 minutos. E assim que o leite todo é derramado, digo, tomado, o sono reaparece. Dorme, de novo. Ofereço-lhe um beijo e saio, à francesa.
Então, após verificar se todas as barulhentas portas estão fechadas, retorno para o quarto; pra cama, aliviado.
Preciso dormir, penso! Contém SPOILER: suas noites de sono jamais serão as mesmas.

Coberto, decido, por força do hábito, saber o horário. Se arrependimento matasse…
Logo me deparo com a próxima missão: o café da manha, às 9h. E o alarme, mais uma vez, será infalível. Qual a dúvida?

Notas de Rodapé:
Laura, a gata.
Martin, o gato.
Tato, a noiva/mãe.
Zelda, a girafa.
Mamute, o mamute.

Denis Antunes

É ator, dramaturgo e jornalista. Autor de "Ontem eu te amo..." e Co-Fundador da Cia. Teatro de Romance. Além de corinthiano e neurótico, é pai da Maria Manuela.

2 Comentários

  1. Kkk!!!
    Muito bom!
    E eu lendo esse post não as seis da manhã, mas as sete morrendo de sono mas acordada esperando minha filha querer levantar pra ir ao banheiro
    ( processo lento de não fazer xixi na cama rs!)
    Mas que bom que tem esse post pra eu ler enquanto espero.

    • Olá, Daiane.

      Sou eu quem agradece: que bom que tenho pessoas como você lendo a minha coluna.
      Espero tê-la sempre por aqui.

      Um abraço!

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