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O papai, o metrô e a matemática.

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Quando criança eu odiava com todas as minhas forças o maldito “você não faz mais que a tua obrigação” que meu pai insistia em me oferecer.
Nossa, eu queria morrer!

– Caramba, arrebentei na prova de matemática! Acertei quatro de cinco questões.

Dizia animado, esperando fita nova do mega-drive ou, no-mínimo-no-mínimo, um milkybar — meu chocolate predileto quando moleque.

Mas, não!  Não adiantava de nada. Absolutamente nada.

 – Você não faz mais que a tua obrigação!

A coisa, pra mim, vinha com desleixo; num tom que beirava o deboche, como se eu não tivesse nem o direito de me pronunciar.

– Pô, que isso?! Sempre odiei matemática. Estudei aquela joça toda. Deitei na prova. Eu mereço. Quero o novo FIFA!

Corta.
Vinte e oito anos se passaram.

Estou eu, em pé, dentro do trem, em plena linha vermelha do metrô, às 5h22 da tarde, no pior horário do mundo para se pegar um trem em plena linha vermelha do metrô, que tomo diariamente em direção à Corinthians-Itaquera.

De repente, percebo um bebê olhando pra mim — depois da paternidade, todos os bebês passam a te olhar, num gesto de complacência, união e trabalho em grupo.
Eu poderia ouví-lo claramente: vâmo nóiz, titio!
E outra, também, né, um ZL sempre reconhece outro.

O bebê em questão, enquanto me olhava, ficava entre curtir o afago da mamãe e ouvir a exclamação chata e verborrágica do papai.

– Tô cansado! Te ajudo em tudo! Boto o menino pra dormir! Te ajudo com a comida; levo pra escola; troco a fralda… O que mais você quer que eu faça?

Com dúvida, fiquei pensando: será que ele prefere a fita ou o milkybar?

Em seguida, me desceu um insight, com a força de uma bomba nuclear.
Os meus pais tinham razão. Aliás, a total razão.
Embora a gente ingenuamente não enxergue, existem coisas que só pertencem a nós; que são de nosso dever; sob nossa responsabilidade.
Quanta obviedade! Ridículo, até.

Assim como a prova era minha, o filho dele é dele, oras.
Ajuda é outra coisa. Ajuda seria se ele fizesse o pé, a mão e a escova no cabelo da mamãe. Aí, sim, ela talvez se sentiria ajudada.

— VOCÊ NÃO FAZ MAIS QUE A TUA OBRIGAÇÃO, MEU IRMÃO!

E filho é tão mais legal que matemática…

Denis Antunes

É ator, dramaturgo e jornalista. Autor de "Ontem eu te amo..." e Co-Fundador da Cia. Teatro de Romance. Além de corinthiano e neurótico, é pai da Maria Manuela.

3 Comentários

  1. olá nossa amei o post, kkkkkkk e isto mesmo todo pai acha que esta ajudando, mas vem cá o filho e seu não e ajuda e obrigação falou tudo rs

    • Denis, eu queria um post seu por dia, você descreve coisas normais que tem uma importância imensa.
      Adoro seus textos!!! Beijos e se cuida 🙂

  2. Oi, muito legal o texto. Sempre ouvi do meu pai exatamente essa bendita frase: “Não fez mais que a obrigação”. Obrigada por me fazer entender essa frase de outra forma. Abs!

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