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Amamentação – Devaneios de uma mãe calejada.

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Maternidade real

Pegando carona na semana mundial de apoio à amamentação, que se inicia no próximo dia primeiro, resolvi escrever um pouco sobre minhas experiências com meus dois filhos.
Para começar, gostaria de deixar um aviso: ninguém aqui vai te taxar de “menos mãe” caso tenha optado por dar complementos para seu filho, ok? cada um sabe das suas escolhas, dos seus motivos e não estou aqui para julgar ninguém. Quero apenas compartilhar um pouco da minha história.
Percebo, cada vez mais, as mulheres se informando, se preparando e cultuando o momento do parto. Ótimo. Tudo lindo. Também curti muito essa fase.
E chegou o grande momento! Minha filha nos meus braços, boquinha procurando o amor líquido que eu sonhava em dar àquele pequeno ser. Pega aqui, puxa ali, tenta se acertar acolá.
Eita, mas não era só colocar o bebê no peito e deixar ele fazer o resto? Não colega, vamos com calma. Fácil assim, só naquela propaganda de TV falando dos benefícios da amamentação. Moça bonita, cabelo escovado, com uma roupa branca impecável, sentada como uma deusa numa poltrona fofinha. Corta. Voltemos à realidade. Eu estava lá, sentada, com os peitos de fora, cheirando a leite azedo, com uma blusa toda molhada pelo líquido que insistia em vazar a todo instante, cabelo desgrenhado e olheiras de dar inveja ao Frank Stein, que já era da família. Ah sim, já ia esquecendo: na cena tinha também uma criança esfomeada pouco ligando para a tal “pega” – se era certa ou errada –  ela queria mesmo era o leitinho.
Por mais que me explicassem a técnica, na real a coisa era bem diferente. O fato era que a pequena criança tinha uma pega errada. Consequentemente meus peitos ficaram completamente machucados. Não te contaram? Sim, pega errada machuca… e muito.
Lá pelo terceiro dia de vida a Lara resolve regurgitar sangue. Assim, bem vermelhinho, para assustar bastante a mãe detentora dos hormônios mais em ebulição do universo. A pessoa aqui, no auge da desinformação, pega a criança e sai correndo. Segue junto… mãe em pânico pega bebê semi nu e sai correndo para o hospital. Pausa: mãe só não sai quase pelada pois a avó, sabiamente, grita “põe uma roupa antes!” – bebê seguia só de fraldas. Entrando no hospital, levando a porta no peito, mãe corre para o pronto atendimento – alguém falou em sala de espera? – Já dentro da sala a pediatra, naquela calma só dela, pega a criança (entre mãe chorando e contando a história) e solta a bomba “seu peito está machucado?”. Ah, peito machucado. Sim, está. Mas a menina está morreeeennnndo, com hemorragia interrrrrnaaaaaa. E você vem me perguntar do peito machucado. Um momento. Peito, sangue, mamadas. Bebê vomita sangue. Alguém tomou leite com groselha. Não, pera… O leite veio do peito, claro, daquele, machucado com o bico quase em pedaços. Bebê não está com hemorragia. É só o peito mesmo. Claro, como ninguém falou que bebês vomitam sangue quando mamam peitos machucados? E assim foi nosso começo, tenso.
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Passada a vergonha nacional, do fato que me rendeu o troféu k̶i̶n̶g̶ ̶k̶o̶n̶g̶ ̶   mico do ano, seguimos forte na amamentação em livre demanda.
E assim Lara mamou  até dois meses antes do meu segundo filho nascer. Ela já tinha mais de dois anos e o processo de desmame foi tranquilo, tanto para mim quanto para ela. Importante essa fase. Desmame natural, sem stress.
Segundo filho chega. Ueba, agora já sei tudo sobre amamentação. Júlio já nasce um bebê auto-mamante. Faz tudo certinho. Só meu corpo que não entende o recado e resolve se rebelar. Vamos lá, mais uma vez… desenvolvo uma mastite no segundo dia de vida da criança.
Pela segunda vez o  prazer da amamentação se transformou em tortura. O começo de cada mamada era terrível.  Amamentava mordendo uma fralda de pano, batia a cabeça na parede. Minha cabeça, racionalmente, me falava “ok, isso vai passar, vai ficar lindo, lembra?”. Ao mesmo tempo, não conseguia acreditar naquilo que eu mesma afirmava. A dor era forte. Mas a vontade de seguir amamentando era maior. Em pouco tempo tudo melhorou. A amamentação voltou a ser prazeirosa e minha sanidade mental passou a beirar a normalidade (ou quase) novamente.
Com base no que vivenciei e pelo que ando vendo por aí, muitos pediatras estão dando as costas para esse momento tão importante para mãe e bebê. Fórmulas são oferecidas às mães, que chegam aos prantos no consultório do pediatra, com uma frequência maior do que o esperado. Mães se agarram a essas fórmulas mágicas, esquecendo-se dos benefícios do leite materno. Mães se entregam às mamadeiras por necessidade, por desespero, por despreparo, por desinformação – por comodidade também. Mães se cansam. Mães precisam de apoio mas não estão encontrando.
No meu caso tive sucesso em ambas as amamentações… apesar dos percalços, superei cada desafio. Contudo, devo gratidão eterna a alguns anjos que passaram pela minha casa, especialistas em amamentação, dando dicas de posições para colocar o bebê para mamar, cuidados com os seios etc. Essas instruções foram essenciais para que eu seguisse firme no propósito de amamentar meus filhos.
Meu marido, outro anjo, foi essencial nessa história. Levantava durante as madrugadas e me auxiliava no que era possível – nem que fosse apenas para me fazer companhia e massagear meus pés. Ponto para o fofo-husband que mostrou que não basta ser marido e pai, tem que ser companheiro e encarar a paternidade de frente, de lado, do avesso.
Minha experiência com dois filhos me mostrou que amamentar não pode ser um ato solitário. Não deve. As mulheres precisam do apoio vindo da família, dos amigos, da sociedade. Precisamos de braços que nos acolham e digam “você é capaz”, precisamos de ouvidos que nos ouçam quando o cansaço bate forte. Precisamos de olhares de conforto que nos digam “amanhã será mais fácil”. E será. Acredite. 🙂

Kelly Stein

Ex-advogada que encontrou na fotografia uma paixão e nos filhos uma razão para tentar mudar o mundo.

10 Comentários

  1. Eu acho muito importante dividir histórias de amamentação que deram certo, especialmente o caminho percorrido para que esse final fosse feliz. Ninguém conta que é difícil. Na minha primeira filha não houve final feliz, e apesar de todos os meus esforços ela recebeu complemento com três meses, seguimos com aleitamento misto até um ano e meio quando ela decidiu que era o momento de parar. Ela desmamou, eu não, a sensação de fracasso me acompanhava. Na segunda filha achei que seria mais fácil, mas a história parecia se repetir, na segunda consulta da bebê de menos de um mês saí com uma receita de leite artificial, mas dessa vez seria diferente, tínhamos informações e sabíamos onde procurar. Consegui amamentar exclusivamente até o sexto mês seguindo até além dos dois é compartilhando com o irmão bebê. O que aprendemos com isso tudo? Informações corretas e apoio à família (os pais precisam de ajuda para saber ajudar) são essenciais para o sucesso da amamentação.

    • Oi Patricia, obrigada por dividir um pouco da sua história também! Acho que são raras e abençoadas as mulheres que conseguem passar ilesas pela amamentação. E sim, o apoio de todos é fundamental!!! E essa troca de experiências facilita muito para que as mulheres não se sintam sozinhas quando os problemas aparecem. E para que saibam também onde procurar auxílio.
      Beijão,

  2. Excelente post!! Parabéns pra Kelly, mamãe guerreira e persistente! sabe que só de ler já fiquei dolorida? Rsrs
    obrigada por dividir essa história com a gente, ajuda as mamães que passam por isso é também as futuras mamães a entenderem a importância de estar preparada pra esse momento. Faz da sua dor (literalmente falando) ensinamento p nós!

    • Então Bruna, acho importante compartilharmos histórias para que outras mães percebam que não estão sozinhas nos altos e baixos da maternidade. Dividindo é que somamos, não é? 😉
      Volte sempre! 😀
      Grande beijo,

  3. Testemunho lindo de uma mãe maravilhosa que em meio aos perrengues e delícias da maternidade vai construindo um caminho lindo para suas crias… Parabéns pelo texto lindo e obrigada por dividir sua história! Bjs pra vc Kel!!!

    • Amiga-irmã-comadre, obrigada pelo carinho, viu??
      Devagar e sempre, vamos construindo um mundinho melhor pros nossos filhotes, né?
      Beijãoooo

  4. Bom eu ainda estou na fase gestante. Dentro de menos de 2 meses se deus quizer vou dar inicio a essa experiencia maravilhosa com um certo toque de tortura. Meu maior medo è sobre o tema do apoio , pois aquí em casa o que esta com o “celebro lavado” com as fórmulas è meu marido. Pois ele ja teve 2 filhos e os dois foran criados com fórmulas, imagino que por deciçao da Mae. Bom cada vez que falamos sobre amamentaçao ele sempre opta pelo lado práctico da coisa que è a fórmula. Tipo outro día comentei a ele que iría comprar bolsas para guardar/congelar o leite por se Algum día tinha que me ausentar, dai ele vem e me fala: ai nao è MAIS práctico comprar uma lata de leite. Imagina minha cara ao ouvir isso. Sei q ele nao fas por mal pq è o q conhece e pode até q pensé que é MAIS cómodo para min. Espero sinceramente que isso mude pois quero muito poder amamantar minha filha pq Sei que è o melhor para ela e Tambem para min.

    • Gabriela, agora é sua vez de “lavar o cérebro” do seu marido. Como ele já teve duas experiências “legais” com complementos, é normal ele ter essa postura agora. Que tal você ficar calma e, com jeitinho, ir mostrando as vantagens do aleitamento materno. Primeiro ponto, o que é mais fácil: bebê chorar e você estar com o leite “prontinho” no peito, na temperatura certa e tudo o mais – ouuuu, bebê chorar, pegar mamadeira, aquecer a água, colocar o pó (tudo tem que estar medido na quantidade correta), depois dar o leitinho, lavar mamadeiras, colocar para esterilizar as mamadeiras? veja, você sai de casa e só precisa levar os peitos. 🙂
      Só para começar a ilustrar o babado todo para o seu marido, que tal mostrar esses links? http://www.abcdasaude.com.br/pediatria/aleitamento-materno
      http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI66388-15148,00.html
      Assim ele começa a abrir um pouco a mente em relação a isso. Mas, o fundamental, não desista. Se tiver alguma dificuldade, procure um profissional especializado em amamentação ou o posto de saúde mais próximo à sua casa – as prefeituras costumam ter equipes treinadas para dar esse suporte às mães. Depois que o bebê nascer, volte aqui para contar como foi a sua experiência! Boa sorte!!! Beijão,

  5. Amei a publicação desse relato. Pura realidade! São as verdades do puerperio que quase ninguém fala. Talvez o momento mais delicado de todo o processo de ser mãe. Tenho uma bb de 1 mes e 23 dias e passei tb por algumas dificuldades no início da amamentação. Me vi em situações iguais como a mãe deste relato e hj eu posso dizer que amamentar é prazeroso. Tive apoio, determinação e a convicção de que amamentar é um ato nobre de amor.
    Parabéns pela divulgação!!!! Precisamos mesmo ser mães solidárias e com informação!!!

    • Paula, a maternidade é linda demais, só que o lado punk quase ninguém conta, né? *rs
      Fico feliz que sua fase “terror” já tenha passado! Agora é só curtir sua “lua de leite”. 🙂
      Beijão,

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